DISCURSO DO EMBAIXADOR
GUAICAÍPURO CUATEMOC
Um
discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro Cuatemoc, de descendência indígena,
defendendo o pagamento da dívida externa do seu país, o México, embasbacou os
principais chefes de Estado da Comunidade Européia. A conferência dos chefes de
Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, viveu um
momento revelador e surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram
perplexos e calados um discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que
lhes fez Guaicaípuro Cuatemoc. Evo Morales repetiu este mesmo discurso em Julho de 2013.
Eis o
discurso:
"Aqui
estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, Para encontrar
os que a "descobriram" só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me
pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O
irmão financista europeu me pede o pagamento - ao meu país- , com juros, de uma
dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão
europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam
vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu
também posso reclamar pagamento e juros.
Consta
no "Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos
1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16
milhões de quilos de prata provenientes da América.
Teria
sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos
faltaram ao sétimo mandamento! Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me
convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.
Teria
sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las
Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a
atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos tirados das
Américas.
Não,
esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro
de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da
Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o
que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e
danos.
Prefiro
pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão
fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano
"MARSHALL MONTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada
por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da
poligamia, e de outras conquistas da civilização.
Para
celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos
europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses
fundos?
Não. No
aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios
invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo. No
aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto
de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas,
das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o
Terceiro Mundo.
Este
quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia
subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio
bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado
todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos
rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias
taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos
do Terceiro Mundo.
Nos
limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico
juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200 anos de
graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula européia de juros compostos,
informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16
milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de 300, isso
quer dizer um número para cuja expressão total será necessário expandir o
planeta Terra.
Muito
peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?
Admitir
que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para
esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a
demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais
questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da América. Porém,
exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores
do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de uma privatização
ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como
primeira prestação de dívida histórica..."
Quando
terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o
Cacique Guaicaípuro Guatemoc não sabia, mas estava expondo uma tese de Direito
Internacional para determinar a Verdadeira Dívida Externa.
Agora
resta que algum Governo Latino-Americano tenha a dignidade e coragem suficiente
para impor seus direitos perante os Tribunais Internacionais. Os europeus
teriam que pagar por toda a espoliação que aplicaram aos povos que aqui
habitavam, com juros civilizados.
Publicado
no Jornal do Comércio - Recife/PE- Brasil.

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